Palavra de especialista
Educação e Tecnologia: Infância e computadores combinam? Publicado: 26 Setembro 2019 | Última Atualização: 05 Outubro 2019

 Muito se tem debatido esse tema, ora colocando a tecnologia como grande vilã, ora como grande aliada de uma educação inovadora.

É claro que infância não é fase de ter agendas atribuladas, muito menos de uma educação marcada pela antecipação da formalização escolar. É tempo da Educação Infantil, do direito à proteção, à provisão, mas também do direito à participação, à livre expressão e ao brincar, de preferência ao ar livre, na natureza. É através do brincar que a criança descobre o mundo,
aprende a interagir, a ouvir o outro, a se fazer ouvir, a ter empatia, a negociar, a desenvolver coragem, autoconfiança, autorregulação, percepção dos seus limites e de suas potencialidades, criatividade e imaginação.

E quais impactos que crianças pequenas sofrem quando muito expostas à tecnologia? Ainda é preciso muita pesquisa para determinar os resultados das transformações que estamos vivendo de forma cada vez mais veloz, mas estudos relacionam a piores desempenho das crianças nos indicadores de desenvolvimento. A OMS recomenda a não utilização de telas até os 3 anos e, entre 3 e 4 anos, o limite de 1 hora por dia. Obesidade, distúrbios do sono, dependência, vício, cansaço, depressão e até suicídio são relacionados ao uso excessivo de telas. Terão as crianças capacidade de frustração, de planejamento, flexibilidade comportamental, para dar conta de alguma autorregulação? Qual o papel dos adultos como mediadores da relação das crianças com as novas tecnologias? Quais as vantagens de levar a tecnologia para a sala de aula? Será uma verdadeira ajuda ao desenvolvimento dos alunos? Ou puro apelo comercial? Faz sentido encher a escola de equipamentos sem pensar em estratégias e procedimentos que tragam benefícios efetivos aos alunos?

Para discutir “tecnologia e educação” é necessário que se defina qual o objeto dessa discussão. Muito do que se tem discutido não aborda a maioria do que poderia ser chamado de “tecnologia”. Fala-se muito das consequências negativas de seu uso pelas crianças, e o fato de os "tops" da tecnologia não permitem o acesso de seus filhos a esse ser indefinido tem sido
frequentemente utilizado como argumento. Em primeiro lugar, os "tops" de tecnologia são "tops" de tecnologia, não de educação. Pelo fato de serem os engenheiros que criam os chamados objetos tecnológicos não são os mais capazes de definir seus objetivos. São técnicos que não se preocuparam, de início, em introduzir princípios éticos na concepção das ferramentas.

Ter construído a bomba atômica não deu a seus cientistas o menor poder sobre sua utilização. Como construir viadutos, pontes, linhas de metrô não lhes dá autoridade nem legitimidade para fazê-lo onde bem entenderem. Quem define os objetivos, locais e funções são as populações, órgãos reguladores governamentais e as necessidades sociais.

É preciso levar em conta a função prática que uma determinada tecnologia desempenhará; quem são seus usuários; que idades e necessidades têm. Mas não ouvimos ninguém afirmar que robótica na escola é uma atividade negativa para as crianças. Nem o ensino da programação em linguagens de computador. Nem a utilização das ferramentas modernas de
projeção e fornecimento de conteúdos e informações nas salas de aula, que nos deram acesso a diferentes culturas.

Espremendo tudo, a “tecnologia” a que mais se referem, muitas vezes de forma negativa, são os smartphones, os “modernos” telefones celulares.

Para o uso excessivo, não é necessária uma norma especial. Todos concordamos com a inadequação de qualquer coisa em excesso. “Tudo demais atrapalha.” Comer demais atrapalha. Dormir demais atrapalha. Mas atrapalha, também, dormir ou comer de menos. E quanto ao uso excessivo, agora falando de um objeto mais específico, o telefone, não são comuns as distinções entre os seus diferentes usos. Um celular, hoje, não é uma máquina com único fim, mas quase uma infinidade de máquinas. Não vimos ainda ninguém avaliar o uso dos instrumentos de pesquisa como prejudiciais. Nem que alguma criança tenha ficado viciada em pesquisar no Google ciências, artes, literatura... e não conseguisse mais dormir.

Aí, talvez, cheguemos ao que assusta e que tememos nominar, pois somos os adultos a ter o comportamento que mais desejamos evitar nas crianças. Talvez precisemos entender por que queremos afastar nossos filhos do que nós fazemos. E, aí, talvez cheguemos a um objeto de discussão. “Tecnologia” poderia ser definida como Facebook? Como Instagram? Flickr? Twiter? Ou será que essa “tecnologia” poderia atender ao nome de solidão? Seria ela a única maneira de se poder escolher com quem falar, já que a maioria das formas, principalmente nas ruas, que estiveram ao alcance de parte de nossos pais e seguramente de nossos avós está interditada? A discussão é sobre a “tecnologia” ou sobre a nossa forma de viver? Ou será,
ainda, que essa “tecnologia” poderia atender ao nome de abandono? Ao criarmos a alternativa de um mundo virtual, podemos deixar nossas crianças soltas, transitando sem orientação quanto aos perigos e desafios a serem enfrentados nesse novo contexto? É assim que devemos ensiná-las a andar sozinhas na rua? A vida online aponta para um mundo maravilhoso, idealizado. Como isso se reflete num adolescente que está construindo sua identidade? Adianta criar restrições sem dar o exemplo?

O direito de ter acesso às mídias e de participar do debate público está assegurado na Convenção Internacional dos Direitos da Criança. Precisamos dar voz às crianças e às famílias para uma visão crítica do mundo. Criar condições para que percebam que a produção de conhecimento, a partir de plataformas, tem suas potencialidades e restrições. Avaliar como
estamos lidando com a informação. Desenvolver as habilidades de acessar, analisar, criar e participar de diferentes tipos de interação em rede, através de uma alfabetização midiática, que construa o entendimento do papel da comunicação na sociedade, além das habilidades de pesquisa e autoexpressão necessárias para se atuar numa democracia.

Para isso, pais e educadores precisam manter uma atitude atenta e aberta; experimentar os desafios ao lado de suas crianças e adolescentes; apresentar esse mundo virtual como apresentamos o mundo real, de mãos dadas, fazendo refletir sobre as questões éticas e humanas, servindo de bússola e exemplo. Nós adultos precisamos estar junto, cuidar da solidão e do abandono que muitas vezes aparecem disfarçados de autonomia e liberdade. Não é porque se sabe usar que se está pronto para enfrentar os desafios que vão surgir na rede. Autonomia se constrói com amparo, com o sentimento de segurança de ser cuidado e amado, ao mesmo tempo em que se é desafiado.

Maria Teresa Moura
Diretora Pedagógica da Escola Sá Pereira